Danilo Freire

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Boko Haram e a violência na Nigéria

Mesmo para um país acostumado a diversos tipos de turbulências, os conflitos recentes na Nigéria vêm tomando proporções alarmantes. De acordo com o Human Rights Watch, desde as eleições de abril de 2010 uma série de ataques terroristas no país fez cerca de 900 mortos e milhares de feridos, levando o presidente Goodluck Jonathan a dizer que “a situação está pior do que a guerra civil”. Mas quais seriam as razões da escalada da violência na Nigéria? Dentre as muitas respostas possíveis, há três fatores que, a meu ver, merecem destaque: os problemas econômicos, o legado da guerra civil e a emergência do grupo islâmico Boko Haram. Vejamos como tais elementos se articulam na atual conjuntura nigeriana.

Apesar de ser o maior exportador de petróleo da África e de seu Produto Interno Bruto ter crescido de modo consistente na década passada, a Nigéria tem passado por sérios problemas na economia. Embora o país tenha ganho cerca de 50 bilhões de dólares ao ano com a venda de petróleo, o total de nigerianos vivendo na pobreza absoluta saltou de 54,7% em 2004 para 60,9% em 2010. No norte islâmico do país os números são ainda mais dramáticos: no estado de Sokoto, por exemplo, nada menos de 86,7% da população encontra-se abaixo da linha da pobreza. É válido lembrar que, na literatura quantitativa de guerra civil, baixo PIB per capita é uma das variáveis mais fortemente relacionadas ao início de conflitos internos, uma vez que em um país com pouca renda não somente o governo possui poucos recursos para combater os grupos insurgentes, mas também os custos de oportunidade de rebelião são bastante baixos para uma parcela significativa dos indivíduos. A este cenário difícil, somam-se ainda as recentes tentativas de Goodluck Jonathan de retirar os subsídios governamentais dos combustíveis, as quais têm afetado de modo agudo o custo de vida dos nigerianos pobres. Apesar da eliminação dos subsísios ser uma medida econômica acertada no longo prazo, dado que os que mais se beneficiam dessa ajuda são os ricos comerciantes de petróleo, a ausência de uma rede social abrangente, que pudesse amortecer o impacto do aumento dos preços, fez com que houvessem protestos em várias partes da Nigéria, aumentando ainda mais as tensões sociais. O presidente, acuado, acabou cedendo à vontade dos manifestantes, mas não sem sérios danos à sua popularidade e à imagem dos políticos nacionais como um todo. Apesar dos protestos terem conseguido o efeito desejado, é válido lembrar que a alocação distorcida das verbas públicas continua a atuar em favor de uma minoria ligada ao estado, indicando que, ao menos em um futuro próximo, as chances reais de desenvolvimento social no país são mínimas. Assim, a ausência de oportunidades econômicas e o explícito favoritismo nos assuntos públicos vêm atuando, de modo decisivo, no sentido de aumentar os riscos de um conflito interno na nação.

Para termos um melhor entendimento do panorama nigeriano atual, há ainda que se levar em consideração o legado da guerra civil que atingiu a Nigéria de 1967 a 1970. A guerra iniciou-se após anos de relações tumultuosas entre os Igbo, em sua maioria cristãos e ocidentalizados, e os emirados do norte, em grande parte Hausa-Fulani, fortemente islâmicos e avessos às influências européias e norte-americanas. Uma série de golpes de estado serviu como estopim para a secessão dos Igbo, que proclamaram a independência da República do Biafra em maio de 1967, mas que ao final perderam a batalha para as forças nigerianas e tiveram seu território novamente anexado ao do país. Os resultados do confronto são ainda claramente visíveis: dado o acirramento das divisões étnico-religiosas durante a guerra civil, até hoje os dois principais grupos envolvidos trocam acusações públicas e já houveram inúmeros embates violentos entre eles durante as últimas décadas. Os Igbo afirmam que são marginalizados nos planos político e econômico, e que as clivagens étnica do país impede-os de obter uma parcela mais justa do desenvolvimento nacional. Em um contexto de poucas oportunidades econômicas e ampla corrupção, tais disputas aumentam consideravelmente a volatilidade política da Nigéria.

Além dos dois fatores estruturais mencionados acima, o terceiro elemento explicativo para a violência na Nigéria é o surgimento do grupo extremista Boko Haram no norte do país. Fundado em 2002 por Mohammed Yusuf, um clérico salafista, o Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati Wal-Jihad (literalmente, “Grupo sunita para pregação e jihad”), mais conhecido por seu apelido em Hausa, Boko Haram (“a educação ocidental é pecado”), vem realizando diversos atentados terroristas contra o governo e a população católica da Nigéria. Ao que parece, até 2009 o Boko Haram não tinha a intenção de fazer uso de violência contra civis, mas a crescente brutalidade policial, as contínuas disputas religiosas no país e a morte de Yusuf fortaleceram os ideais radicais do grupo. A partir desta data, com efeito, os ataques passam a ser bem mais freqüentes e letais, passando a incluir bombardeios a igrejas e até à sede local das Nações Unidas. Devemos, destarte, colocar-nos uma pergunta: o que realmente almeja o Boko Haram? A resposta ainda não é clara: os membros do grupo comumente justificam suas ações por meio de uma difusa rejeição aos valores ocidentais, tais quais a democracia e a ciência “anti-islâmica”, e pela necessidade de implementar a shari’ah em todo o norte nigeriano para punir os “infiéis”, mas não há um programa bem delimitado de reinvidicações e pouco se sabe a respeito das metas de longo prazo dos extremistas. O uso de homens-bomba e outras táticas de terror, até então pouco usuais na Nigéria, fez com que diversos analistas sugerissem que o grupo possui ligações com organizações fundamentalistas internacionais, em especial a Al-Qaeda no Magreb e o Al-Shabaab, baseados respectivamente na Argélia e na Somália. É necessário destacar, entretanto, que o Boko Haram não se enquadra perfeitamente na mesma categoria que tais movimentos: ao menos até agora, não há indícios que o Boko Haram queira expandir seu foco de atuação para além da Nigéria, e também o histórico de lutas religiosas e subdesenvolvimento no norte do país faz com que o surgimento do grupo não possa ser associado exclusivamente à infiltração de organizações terroristas do exterior. Ademais, uma das mais antigas plataformas do movimento é a luta contra a notoriamente corrupta polícia nigeriana, fato que, inicialmente, lhe rendeu certo apoio mesmo de outros setores da sociedade. Todavia, como o Boko Haram tem atacado não somente cristãos como também muçulmanos, a simpatia dos civis para com a organização tem-se esvaído, embora o número de militantes engajados no movimento demonstra que seu poder de atração ainda é considerável.

Diante de tais condições, o que o governo da Nigéria deveria fazer? Uma alternativa, proposta por Todd Moss, é a ampliação dos programas sociais e a criação de um fundo especial para investimentos. Como o Boko Haram, ao que tudo indica, não é um grupo fundado por uma elite, mas organizado em torno de jovens pobres e sem emprego, a idéia realmente pode funcionar. Eu adicionaria a este receituário também um plano para melhorias na infra-estrutura, cuja situação é, no geral, lamentável, e mecanismos que facilitassem a abertura de micro-empresas, como pequenos empréstimos destinados a futuros produtores, que embora não sejam uma panacéia, podem colaborar consideravelmente para o desenvolvimento da Nigéria. Além disso, também é urgente uma reforma nas instituições policiais do país. É fato que Goodluck Jonathan promoveu um grande investimento em segurança no país - o setor abocanha hoje quase 20% de todo o orçamento público - mas com os atuais níveis de corrupção da polícia é certo que boa parte das verbas irão enriquecer alguns em detrimento de melhores serviços para muitos. Os gastos seriam melhor aplicados nas áreas de inteligência e em vigilância comunitárias, ações de menor custo e com boa eficácia contra o crime. Sem esse conjunto de medidas, o futuro da Nigéria permanecerá incerto. Não se pode contar apenas com boa sorte para salvar um país.

(Publicado em Cenário Estratégico, 12/03/2012)

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